Milla

An Education

In Cinema e Mulher, Oscar on 27/03/2010 at 23:15

Demorei um pouco para falar sobre esse filme, apesar de já tê-lo visto há algum tempo. Mas não faz mal, até porque nas aulas de análise fílmica do Professor Karl Sierek a gente aprende que o primeiro passo de se analisar ou criticar o filme é assistí-lo e esperar um tempo, esperar a poeira baixar, as emoções que o filme transmite serem digeridas e então acessar a falha memória e deixar a análise correr. Para quem trabalha como crítico de cinema essa tarefa não parece ser das mais fáceis, já que se tem um deadline a cumprir. Mas como o Blog é apenas um hobby, eu posso me dar a esse luxo. Queria avisar que, se por um acaso você ainda não assistiu o filme e se você é do tipo de pessoa que gosta da surpresa total, então não leia esse post antes de assistir porque contém spoilers!

Logo depois de assistir o filme da diretora Lone Scherfig, eu fiquei numa relação de amor-e-ódio com ele. Primeiro pensei no motivo que o levou concorrer a três categorias do Oscar – melhor atriz, melhor filme e melhor roteiro adaptado – já que existem tantos outros filmes de temática e produção tão interessantes quanto, se não mais, que também poderiam estar lá. Talvez porque esse “An Education”, apesar de europeu (britânico), tem um roteiro e uma produção próxima ao cinema de Hollywood. Acho sinceramente que a distribuição do Oscar está muito mais voltada para termos políticos e estéticos (no sentido da beleza e harmonia das formas e de roteiro) do que para termos de qualidade em si, claro tudo isso é muitooo subjetivo. Nesse sentido o “An Education” estaria incluso por motivos estéticos, se levar em consideração a harmonia entre os atores principais Peter Saarsgard – como David –  e a Carey Mulligan – como Jenny.

Os anos cinquenta do filme não usa como soundtreck só Rock como se podia esperar,  mas dá até preferência a músicas que  dão à trama a um ar de luxo e glamour como por exemplo as músicas cantadas pelas francesas Juliette Gréco (Sous Le Ciel De Paris) e Madeleine Pezroux (J’ai Deux Amours) como também a música de Ray Charles “Tell the Truth”. Glamour aliás é algo que é apresentado à jovem Jenny do momento em que ela conhece David até o final!

O segundo motivo que me levou a titubear em não gostar do filme foi uma dose de clichês. Se fosse exagerar diria que o filme se trata de uma guerra de sexos. O pai de Jenny exige demais dela e não quer que ela se envolva com os rapazes e chama seu tímido pretendente de roqueiro, exige que ela estude bastante para ser aceita em Oxford. O filme vai e volta a essa temática de  ser aceita em uma universidade, assim como muitos filmes e séries americanas, nos quais a atriz principal sonha em ir pra Harvard ou Yale.

Além disso ele não aprova a escolha de Jenny de estudar literatura e sim queria que ela estudasse direito. Mas todo o (falso) moralismo do pai vai se derretendo como um Iceberg nesses tempos de aquecimento global conforme David vai se aproximando da família. David era o pretendente que todo o pai sonharia o único defeito dele para o pai de Jenny era ser judeu, mas David tratou de reverter o quadro rapidinho, se ele realmente fosse como se apresenta a família, um homem distinto, que se diz formado também em literatura, que tem condições de levar Jenny para os concertos que ela tanto aprecia e até mesmo para Paris, a cidade dos sonhos da menina que é aplicadíssima no francês. Mas essa relação não é vista com a mesma euforia pela diretora e pela professora do colégio onde Jenny estuda, que reprovam a maneira como ela tem se dedicado cada vez mais ao namorado e menos aos estudos.

Mais clichês? Uma dose de problemas pais e filhos, rebeldias adolescentes, apesar de leves aquela história de mulher inteligente ou pelo menos estudiosa, é feia e mulher que não liga para os estudos, fútil, é linda  etc…

Mas  repassando o filme na memória, confesso que eu tenho que dizer que gostei. Sim, gostei da sutileza, da leveza do drama, das músicas e principalmente, mas principalmente mesmo, da atuação da Carey Mulligan! Quem chega no meio do filme parece não conseguir se lembrar da menina aplicada, séria, na chuva após ensaiar com seu violão cello para um concerto do colégio, a espera do ônibus para voltar para casa. Nesse momento ela é abordada por David pela primeira vez. A expressão dela de quem não sabe se vai ou se fica, se se arrisca a entrar no carro de um desconhecido ou se fica na chuva com o risco de estragar o cello é extraordinária. É simples, não é uma atuação forçada e sim uma expressão natural de uma menina que está numa fase de incertezas na vida.

Essa mesma menina no melhor estilo “quem sabe ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola, sozinha…” de Cassia Eller, passa por uma metamorphose que vem na dose certa, a cada descoberta do mundo novo que David a apresenta, um mundo onde parece não haver mocinhos nem vilões, onde ela tem que rever seus conceitos burgueses – o próprio David fala sobre isso com ela após ela querer abandoná-lo ao saber que ele roubou um antigo quadro da parede de um casarão velho a venda –  e passar a aceitar que o certo e o errado pode variar dependendo do ponto de vista de está vendo. A narrativa tem um desdobramento fantástico, pois mostra o amadurecimento de Jenny não só como mulher, mas como ser humano. Ela começa então a se questionar se tudo aquilo para o qual  ela dedicou a vida inteira realmente tem valor. É essa a temática do filme! O conhecimento adquirido da experiência de vida pode substituir o conhecimento adquirido nas quatro paredes de uma sala de aula, ou de uma biblioteca, ou de um quarto ou vice versa? Até então Jenny nunca havia questionado isso, porque ela simplesmente não conhecia uma outra maneira de adquirir conhecimento.  O que adiantava saber latin, uma língua que nem é mais falada, ou francês sem nunca poder ir a França, ou tocar Cello e gostar de música erudita se nem ao menos tinha a oportunidade de ir a um concerto? Tudo pelo sonho de ir pra Oxford-tirando o Cello que era realmente por puro prazer- mas será que isso era realmente necessário?

Além disso agora ela tinha alguém especial, alguém que a levava a concertos, que a levava para Paris, que a divertia, que a transformou em uma mulher adulta- ela acreditava mesmo nisso!-  e que além de tudo a pediu em casamento. Que utilidade então teria para uma moça tão sortuda como ela, a bendita education, no sentido de escola e universidade? E aí o filme agride o ego de feministas e de não feministas, mas mulheres que, como eu, são contra a formação de “Amélias”. Sim porque o que a gente vê se desdobrando na tela é quase um crime! Uma menina extremamente inteligente jogando os estudos para o alto para se dedicar a um marido! Não nos levem a mal guys, mas para a cabeça de uma mulher ocidental hoje, isso é atestado de burrice… Mulligan transforma a doce Jenny do começo em uma típica adolescente da atualidade, uma menina que acredita saber de tudo, ter experiência e motivo suficiente para largar a escola sem querer parar para ouvir o que pessoas mais velhas tem a dizer. Quando falo em pessoas mais velhas me refiro à professora e à diretora do colégio. Ela as afronta e sai para a vida de “pré-amélia”. E os pais da menina? Essa é uma excelente pergunta!A mãe de Jenny é um estereótipo da dona de casa zelosa que não vai contra as ordens do marido, se concorda sorri, se não concorda faz cara de quem não gosta, mas aceita a decisão dele. Aliás, as falas da mãe de Jenny são mínimas, não dá nem pra comparar com o tanto que o pai dela reclama fala. Mas David consegue conquistar pai e de quebra também a mãe com a “estabilidade” financeira que aparenta ter, além do bom humor e jogo de cintura. Mesmo se a mãe de Jenny fosse contra a filha largar tudo, o pai parecia não estar nem um pouco preocupado. Sendo assim, não tinha como evitar o drama que estava prestes a se desenrolar na vida da menina. Com o tempo até a gente pega simpatia por David, de qualquer maneira não dá para entender porque ela tinha que largar os estudos para ficar com ele! Claro, diferenças de épocas de cultura!  Mas, por mais que David é simpático, legal, e atencioso com ela, é revoltante vê-la bandonar um sonho que cultivou a vida toda.

De repente a trama chega a um ápice – que eu não vou contar qual é – e  vemos, a então cheia de si, Jenny em um processo de desmetamorphose ou remetamorphose – dependendo do ponto de vista de cada um –  da personagem. E pra mim é aí que está a grande sacada do filme, por mais óbvio e simples que tudo isso pareça.

A forma natural em que Mulligan trabalhou a desmontagem e remontagem da personagem, que ao mesmo tempo que regrediu à colegial, cresceu a ponto de enfrentar seus fantasmas – subtende-se a diretora do colégio – e ter coragem de pedir apoio à professora, quem ela antes pré-julgou como detentora de uma vida sem graça, chata. Ela agora se apresenta à mesma  como uma menina que se sente  velha, mas não muito (mais) sábia.

Saem as maquiagens, os penteados à la década de 60, as roupas glamourosas e vem para o mise-en-scéne uma menina mais determinada,, enfrentando as noites com os livros, numa sessão de estudos exaustivas, numa corrida contra o tempo para quem já perdeu um ano. Nessa cena aqui ao lado isso é muito bem representado e até parece que alguém está vigiando-a do lado de fora da janela, não parece?

E é essa cena, da menina que largou tudo por amor e depois teve que reatar de onde parou, determinada a passar em Oxford, que fica  como a primeira imagem que vem a mente quando penso a esse filme. Foi tão forte, que as músicas, as danças, os figurinos, enfim o glamour já falado aqui, parecem não ter o impacto ou tanta graça como essa aqui. E é por isso que eu digo que gostei desse filme e que ele realmente merecia ter sido indicado às três categorias já mencionadas anteriormente.

Interessante ainda é pensar que essa história é baseada na vida da jornalista e escritora Lynn Barber, que como Jenny largou tudo para ficar com um homem mais velho e depois teve que correr atrás do tempo para ter a chance de realizar o sonho de estudar em Oxford.  Ela trabalha para o Sunday Times e publicou um pequeno artigo com sua auto;biografia o qual foi usado como base para o roteiro do filme. Em junho de 2009 ela então publicou o livro An Education onde relata sua história. Lynn é também autora do livro Sweeney Todd, O barbeiro Demoníaco de Fleet Street.

Foto de barber quando jovem, o que vocês acham, parece com a Carey?

Mudando de Coca para Fanta Laranja…

– Digam-me, essa cena não está à la Godard?

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